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Língua comprida
O menino estava preocupado. Desde a noite anterior os pais não se entendiam e não era a primeira vez que eles se estranhavam, mas ele nunca ouvira o pai falar em cortar a língua da mãe, como ouviu desta vez. Não conseguia esquecer o diálogo dos pais, e pelo que ele entendeu a culpa era toda da avó.
__ Você é igualzinha a sua mãe __ Ouvira o pai dizer.
__Você me conhecia há cinco anos quando quis se casar comigo.
__Mas não sabia que tinha a língua tão grande,  vou  cortá-la pela metade. É o que o seu pai deveria ter feito há muito.
O leite ficou todo no copo. Não tinha fome. Logo pela manhã, observou que a mãe chorava. O pai não estava para brincadeira. E tudo por causa da avó.
__Mãe, você tem a língua grande?
__Tenho, Teo. Eu tenho a língua grande.
__Deixa eu ver. __A preocupação era visível. A mãe ficou com pena do filho.
__Não é língua que está na boca, Teo. É a língua que falou. É diferente. __A mãe estava impaciente.  
__E a língua que fala não  está na boca? __ O menino perguntou confuso.
__Está, Teo, está, mas é diferente.
__É a língua da minha avó, não é? __Insistiu o menino.
__É, é, é_a língua da sua avó. Vai brincar, vai. __O menino não foi.
__ Mãe?
__ O que é, Teo?  
__ O que a vó falou?
__Sua avó não falou nada.
__ Falou sim, eu ouvi meu pai falar...
_ Teodoro Neto, o senhor não ouviu nada.
A resposta da mãe foi cabal. Realmente as coisas não estavam boas. Teodoro Neto...,  agora, até ele estava ficando bravo, e tudo por causa da avó.
O telefone tocou quatro vezes, ninguém desceu para atender. Ele atendeu.
__ Alô... , vó é você? __ O menino começou a contar o drama que estava vivendo. __ A minha mãe chorou ontem e hoje. Eu acho que ela está doente. E eu acho que é por sua causa...
__ Teo, quem é? __Perguntou a mãe, descendo a escada.
__ É minha vó. Eu disse ...
__Me dá aqui. __ O menino ficou apreciando o que a mãe falava.
__Não, eu não tenho nada. O Teo está enganado, imagine... __ a mãe se explicava no telefone. E o menino ficou feliz. Ótimo ele havia se enganado.  A mãe estava bem. Mas o clima não era o de todo dia.
À noite, nem a TV foi ligada, e tudo por causa da avó. O pai lia o jornal, a mãe fazia crochê, ninguém falava nada, “ desde de ontem,” __  pensava o menino: “gente grande é muito chata,”  quando a campainha tocou:
__Eu abro, __ gritou o menino.
__Teodoro. __A mãe levantou, mas nem o chamando pelo nome de batismo adiantou. Ele abriu a porta.
__Vó, você veio?
__Vim, você me deixou preocupada. Você me disse que sua mãe estava chorando.
O menino olhou para o pai que levantou os olhos do jornal. Cumprimentou a sogra e voltou para a leitura.
__Chorou, eu vi.__ O menino confirmou.
__Teo, não invente, que coisa feia...
__ Vó, minha mãe chorou por sua causa. __ Olhou para o pai pedindo ajuda e não entendeu o olhar repressor do pai.
__ Fique tranqüila, mamãe, eu estou bem. O Téo se enganou.
__Não me enganei. Eu ouvi meu pai falando que ia corta a sua língua.
__ Teo, deixe de tro-ló-ló. __ O pai interveio, já antevendo a tempestade.
A avó olhou bem no olho do neto e vociferou:
__ Se o seu pai disse  isso, você vai me ajudar a cortar a dele, agora.
A filha conhecendo as rusgas entre o marido e a mãe dela, tratou de por água benta.
__Mãe, o Teo fala demais. Não se pode por farinha na conversa do Teo.
__Pode sim, dependendo da farinha dá um bom tutu. __ Ironizou a avó
__ Eu não gosto de comer farinha. __ gritou o menino.
__Não gosta de comer, mas faz um bom mexido. __Falou o pai e deixou a sala.
__Viu o que você fez, filho? __  Lamentou a mãe.
__Ele não fez nada demais, __defendeu a avó e acrescentou: __ é bom ter um espião na casa. O menino sentindo que tinha espaço, disparou:
__Meu pai falou que minha mãe é  linguaruda igual a você, vó.
__ Teo ?!
__ Falou. Falou que seu pai devia ter cortado a língua dela. __E apontou para a avó.
__ Teodoro Neto?!  __A mãe falou calma, mas sabia que a tempestade estava só começando.

Luzineti Espinha
Enviado por Luzineti Espinha em 05/03/2018


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Imagem de cabeçalho: raneko/flickr