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Conversa fiada
          Penso ser pertinente começar minha crônica dando explicações, primeiro sobre o título: “Conversa fiada”, assim se referia à crônica, uma professora de literatura que tive na década de setenta, dona Laura. A figura marcou a minha vida e é responsável pela minha predileção pela linguagem poética, pela poesia. Gosto tanto que vejo poesia numa manhã florida de sol, como a vejo numa tarde cinzenta de chuva deixando embaçado o vidro da janela.
          Ah, me descobri saudosista!
          Não, não sou kardecista, mas não sei se não seria um caso de mediunidade, ou, acaso, uma autoterapia de regressão... A verdade é que consigo vê-la, no meio da sala de aula, seu corpo avantajado de seios imensos, (ninguém fazia regime naquela época) sacudindo o livro com as crônicas de Machado de Assis e dizendo:
          — Embora, vocês estejam vendo o Bruxo do Cosme Velho — e mostrava o volume com as crônicas que trazia na capa a foto tradicional do Machado — aqui — ela pontava com o dedo — ele jogou conversa fora. —  Opinião dela, claro, não é a minha. Nunca me atreveria a tanto. E quando ela abaixava braço, o retrato do escritor ficava de bruços e eu pensava: — hummmm , cuidado com os óculos, era tão real que eu tinha a impressão de que  o pincenê fosse deixar o rosto e se fragmentar no chão.
          Depois, ela pegava  outro livro, com os poemas de Petrarca, o pai do soneto, com uma capa de couro, e tecia comentários sobre sua linguagem clássica, sua técnica, seu estilo, que hoje penso que minha paixão foi manipulada, induzida, e agradeço a Deus ela já ter morrido, porque se estivesse viva sofreria muito vendo que, metade do povo nem sabe quem foi o cidadão: primeiro, quem o estudou, já está tão velho ( como eu) que se esqueceu (não me esqueci: ainda); segundo, o clássico foi tirado de cena, eu me arriscaria, até a dizer que virou palavrão; terceiro, fica por conta da hegemonia inglesa, o italiano “caiu fora”.
          “Caiu fora”, ela também me censuraria: — Que expressão é essa, moça, bate na boca três vezes.
          Claro que ela conhecia a variedade linguística, conhecia tudo da língua portuguesa, e se não se matasse, enlouqueceria vendo o “internetês” em bando correndo atrás do velho português. O coitado corre, esperneia, faz o que pode, mas sinto que ele está cansado, desiludido, claudicante, tíbio. E sabe que se o alcançarem, a primeira coisa que vai lhe acontecer é ficar sem a genitália.  
          — Ah, dona Laura, que saudade do seu  “Canzoniere”: - "La cosa bella e mortale passa e non dura". "Coisa bela e mortal passa e não dura".

Luzineti Espinha
Enviado por Luzineti Espinha em 18/12/2020
Alterado em 18/12/2020


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